quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Caso subordinado

Caso subordinado
Cheguei em casa numa tarde de janeiro. O Sol se punha com tamanha beleza que quase não acreditei na cena. O mar o engolia a cada minuto. O céu transformava-se de azul para laranja. A luz refletida nas árvores da ilha onde ficava o farol deixava tudo mais dramático. Subi as escadas da entrada e deparei-me com um homem o qual nunca antes vira. Estava parado na porta da frente e apreciava o jardim. O crepúsculo fazia-o parecer iluminado. Seus cabelos castanhos-claro adquiriam uma tonalidade avermelhada maravilhosa. Fiquei parado ali, apenas fitando-o. Ao me ver, desceu os degraus, despediu-se e foi embora.
Entrei na casa e anunciei minha chegada. Morava com amigos em uma casa de praia. Duas mulheres e outro homem. Éramos chegados desde o tempo de colégio, quando nos conhecemos. Quando oportunidades de emprego surgiram numa cidadezinha litorânea, concordamos em dividir o mesmo espaço. Perguntei se alguém mais vira aquele homem parado na soleira. Ninguém respondeu, então, deixei para lá.
- A faxineira veio hoje? - perguntei.
- Acho que sim... quero dizer, a casa parece limpa, não!? - disse Ráissa.
- Como assim "acho que sim"? Você não a viu?
- Na verdade, não. Escutei alguns barulhos aqui embaixo, devia ser ela.
Sim, amigos desatentos são os que tenho. Ráissa passava o dia no segundo andar. Estava escrevendo um livro de romance, o quinto, na verdade. Além disso, é pintora bastante reconhecida. Marcela preferiu seguir a carreira médica e, quando não estava de plantão, esquecia-se do mundo ao ler as publicações médicas mais recentes. Marcelo, o outro homem, ficava fora o dia inteiro, pescando. É um cara bem "zen". Fez o quintal dos fundos virar um jardim/pomar. Eu segui a carreira musical. Toco na orquestra da cidade e estudo para ser compositor e regente. É um trabalho extremamente divertido e que me rende muitas viagens. Minha última foi ao Oriente Médio. Fiz pesquisas sobre a tradição musical de lá.
- Ótimo, então... podia ser um ladrão e você continuaria sentada lá em cima, certo?
- Podia, sim, mas não era. E veja, deve ter sido mesmo a faxineira. A casa está linda.
Fui para meu quarto. Sentei-me ao piano e tentei compôr alguma coisa. Olhei pela janela. O Sol já havia se posto, mas sua luz ainda iluminava o céu. Lembrei-me do tom avermelhado, de toda aquela serenidade... aquele corpo... É, estava pensando naquele cara. Ele, realmente, causara uma ótima primeira impressão em mim, não fosse o fato de estar às espreitas no jardim. Mas não devia me iludir, afinal, qual a chance de ver um completo estranho outra vez? Ainda que a cidade seja pequena, as possibilidades de encontro com uma mesma pessoa são remotas. As casas ficam muito afastadas para termos relações de vizinhança e todos trabalham em outros municípios. Desiludi-me de uma vez e fui jantar.
Éramos eu e Ráissa naquela noite. Marcelo dormia na praia. Dizia que precisava de uma intimidade maior com o mar para pescar. Além disso, os melhores peixes apareciam antes do nascer do sol. Marcela estava, outra vez, de plantão.
- Vou dormir... - disse.
- Ok... vou terminar meu livro.
Sonhei com ele naquela noite...
No dia seguinte, decidi voltar a pé para casa. E quem encontro no caminho? Exatamente. Ele me reconheceu e foi a meu encontro. Começou a falar de jardins e disse que um dos mais belos que já havia visto era o de minha casa. A conversa rendeu. Eu também adorava jardins.

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