31 de Dezembro
O ano novo se aproximava. Era dia 31 de Dezembro, talvez 1º de Janeiro... perdi a noção do tempo naquela noite. Perdera-me ao olhar as estrelas. É incrível como o céu é diferente quando se está longe da cidade. É onde eu estou. Longe, bem longe de tudo aquilo.
Não é que não gostasse da vida urbana, só penso que, lá, tudo é corrido de mais. As pessoas querem o "aqui" e o "agora" e se irritam quando há atrasos, ainda que pequenos. O campo também já começa a apresentar esses sintomas do imediatismo. Há televisão e computador, blackberrys e todo tipo de tecnologia. A diferença é: no interior, as entregas chegam com um ou dois dias úteis de atraso em relação à cidade. Sorte a minha, estou numa cidade mais isolada que tudo o que já conheci. Não sei nem mesmo se posso chamar isto aqui de cidade. Um lugarejo, quem sabe.
Há 223 pessoas aqui, 224 comigo. Vim visitar um amigo, Lucas, que se abrira comigo, há cerca de uma semana, por telefone (a Internet não chega aqui). Resisti um pouco, devo admitir, afinal, ficaria longe de tudo e todos e não poderia ver os fogos ou as comemorações de ano novo de minha cidade. Mas achei que seria interessante e, vejam só, me surpreendi. É incrível aqui.
Olhando as estrelas, pensei na conversa que tivemos. O início do diálogo foi comum. Perguntou-me como estava, o que fazia da vida, questões razoáveis de fazer quando há muito não se vê ou se fala com alguém. Era meu amigo desde os tempos da formação do planeta, mas se mudara para esta fazenda há cerca de um ano. Eu fui para a faculdade e não nos falamos mais. Ele sempre me confiou seus mais profundos segredos, assim como eu lhe confiara os meus. Lembro-me de quando escondi três revistas Playboy debaixo de minha cama. Eu devia ter uns oito anos. Não me interessava por mulheres, era muito novo, só pensava em jogos, figurinhas de colecionar e desenhos animados. As revistas me interessavam apenas por que eram "proibidas". Dava gosto ter algo que, teoricamente, eu não podia ter. E bem ali, debaixo de minha cama. Quando mamãe as encontrou, ficou puta. Lucas estava comigo. Sabia sobre o segredo (ok, não era um segredo assim tão profundo, só tínhamos oito anos!) e não abriu a boca. Neguei até a morte (que chegou muito próxima de mim, aliás) e ainda disse que as revistas eram de meu pai. Lucas confirmou, disse que já vira o homem levantar o colchão e mexer em alguma coisa ali debaixo. Mamãe pareceu acreditar, afinal, o colchão era muito pesado para um garoto raquítico como eu erguer.
Enfim, após todos os "passar bem" da ligação, veio a bomba. "Então, cara... tem esse garoto, filho do fazendeiro vizinho, e..." Meu corpo gelou. Não podia ser verdade. Depois de tantos anos juntos e apenas um de separação, ele me revelou. "Fizemos algumas coisas e... eu gostei..." Disse que nunca sentira o que sentiu por mulher alguma, mas não estava apaixonado. Foi apenas um momento que o perturbou. Fiquei pasmo. Também tinha uma confissão a fazer. Naquele mesmo ano, após entrar na faculdade, também fiz "coisas" com outro homem. E foi realmente incrível, pois nunca sentira nada parecido, nem com uma pontinha de semelhança, por uma mulher. Uma ou outra prendiam minha atenção, mas era na base de uma em cinquenta e, mesmo assim, não havia atração sexual. Já com os homens, era bem diferente. As chances de desviarem meu olhar para seus belos físicos eram de algo como quarenta em cinquenta. Se fizessem um gesto mais ousado, o tesão rolava. Eu não me tornara um "biscate" nem nada parecido. Ficara com um homem apenas, mas foi o suficiente para saber. E ali estava, meu melhor amigo de todos os tempos, a contar-me sobre suas aventuras. Não falei nada sobre mim, porém. Disse apenas que queria confessar-lhe uma coisa, mas o faria pessoalmente.
Cheguei à fazenda no dia 31 pela manhã. Sua família veio me receber (não sabiam de nada ainda). Ele estava ali. Abraçou-me como se abraça alguém que é realmente importante, alguém com que se preocupa, com que se tem carinho além do que se tem com os demais. Em seu quarto, onde eu iria dormir, já no final da tarde, perguntou-me qual confissão eu guardava. "Conto no ano novo." disse.
Fui tomar um banho. Não havia preocupação de vestir uma roupa diferente, mas eu estava nojento da viagem. Foram quase dois dias inteiros de ônibus. Dois dias sem banho! Ah! A água lavando meu corpo nunca foi tão boa. Era como se o céu tivesse descido e me acolhido ali mesmo, nu.
Um cheiro de peru assado impregnou a casa. Procurei por Lucas, mas ele não estava em nenhum cômodo. Avistei-o lá fora, um vulto naquele pôr-do-sol maravilhoso. Caminhei até ele.
- Ahá! Está bem melhor agora, ahm? - perguntou-me, caminhando para um pouco mais longe da casa.
- Nada como um bom banho.
- E então, vai me contar? - perguntou. Ao que parecia, corroía-se de curiosidade. Já havíamos descido uma pequena colina. A casa não mais estava à vista.
- Já é meia noite? Acho que não, hein. Mas você pode me contar alguns detalhes do que aconteceu. - ousei.
E ele contou, mesmo! Detalhes dos detalhes até, sem nenhuma censura. O Sol fora substituído pela Lua. As estrelas reinavam no céu. Ah, como era gostoso ficar ali, na companhia de um verdadeiro amigo, a ver a infinitude do universo. Deitamos na grama e apreciamos o momento. O silêncio era absurdo. Podíamos escutar a respiração do outro. Longe dali, animais soltavam seus ruídos, que se misturaram, após um tempo, com nossos suspiros ofegantes...
O ano novo chegara.
Não é que não gostasse da vida urbana, só penso que, lá, tudo é corrido de mais. As pessoas querem o "aqui" e o "agora" e se irritam quando há atrasos, ainda que pequenos. O campo também já começa a apresentar esses sintomas do imediatismo. Há televisão e computador, blackberrys e todo tipo de tecnologia. A diferença é: no interior, as entregas chegam com um ou dois dias úteis de atraso em relação à cidade. Sorte a minha, estou numa cidade mais isolada que tudo o que já conheci. Não sei nem mesmo se posso chamar isto aqui de cidade. Um lugarejo, quem sabe.
Há 223 pessoas aqui, 224 comigo. Vim visitar um amigo, Lucas, que se abrira comigo, há cerca de uma semana, por telefone (a Internet não chega aqui). Resisti um pouco, devo admitir, afinal, ficaria longe de tudo e todos e não poderia ver os fogos ou as comemorações de ano novo de minha cidade. Mas achei que seria interessante e, vejam só, me surpreendi. É incrível aqui.
Olhando as estrelas, pensei na conversa que tivemos. O início do diálogo foi comum. Perguntou-me como estava, o que fazia da vida, questões razoáveis de fazer quando há muito não se vê ou se fala com alguém. Era meu amigo desde os tempos da formação do planeta, mas se mudara para esta fazenda há cerca de um ano. Eu fui para a faculdade e não nos falamos mais. Ele sempre me confiou seus mais profundos segredos, assim como eu lhe confiara os meus. Lembro-me de quando escondi três revistas Playboy debaixo de minha cama. Eu devia ter uns oito anos. Não me interessava por mulheres, era muito novo, só pensava em jogos, figurinhas de colecionar e desenhos animados. As revistas me interessavam apenas por que eram "proibidas". Dava gosto ter algo que, teoricamente, eu não podia ter. E bem ali, debaixo de minha cama. Quando mamãe as encontrou, ficou puta. Lucas estava comigo. Sabia sobre o segredo (ok, não era um segredo assim tão profundo, só tínhamos oito anos!) e não abriu a boca. Neguei até a morte (que chegou muito próxima de mim, aliás) e ainda disse que as revistas eram de meu pai. Lucas confirmou, disse que já vira o homem levantar o colchão e mexer em alguma coisa ali debaixo. Mamãe pareceu acreditar, afinal, o colchão era muito pesado para um garoto raquítico como eu erguer.
Enfim, após todos os "passar bem" da ligação, veio a bomba. "Então, cara... tem esse garoto, filho do fazendeiro vizinho, e..." Meu corpo gelou. Não podia ser verdade. Depois de tantos anos juntos e apenas um de separação, ele me revelou. "Fizemos algumas coisas e... eu gostei..." Disse que nunca sentira o que sentiu por mulher alguma, mas não estava apaixonado. Foi apenas um momento que o perturbou. Fiquei pasmo. Também tinha uma confissão a fazer. Naquele mesmo ano, após entrar na faculdade, também fiz "coisas" com outro homem. E foi realmente incrível, pois nunca sentira nada parecido, nem com uma pontinha de semelhança, por uma mulher. Uma ou outra prendiam minha atenção, mas era na base de uma em cinquenta e, mesmo assim, não havia atração sexual. Já com os homens, era bem diferente. As chances de desviarem meu olhar para seus belos físicos eram de algo como quarenta em cinquenta. Se fizessem um gesto mais ousado, o tesão rolava. Eu não me tornara um "biscate" nem nada parecido. Ficara com um homem apenas, mas foi o suficiente para saber. E ali estava, meu melhor amigo de todos os tempos, a contar-me sobre suas aventuras. Não falei nada sobre mim, porém. Disse apenas que queria confessar-lhe uma coisa, mas o faria pessoalmente.
Cheguei à fazenda no dia 31 pela manhã. Sua família veio me receber (não sabiam de nada ainda). Ele estava ali. Abraçou-me como se abraça alguém que é realmente importante, alguém com que se preocupa, com que se tem carinho além do que se tem com os demais. Em seu quarto, onde eu iria dormir, já no final da tarde, perguntou-me qual confissão eu guardava. "Conto no ano novo." disse.
Fui tomar um banho. Não havia preocupação de vestir uma roupa diferente, mas eu estava nojento da viagem. Foram quase dois dias inteiros de ônibus. Dois dias sem banho! Ah! A água lavando meu corpo nunca foi tão boa. Era como se o céu tivesse descido e me acolhido ali mesmo, nu.
Um cheiro de peru assado impregnou a casa. Procurei por Lucas, mas ele não estava em nenhum cômodo. Avistei-o lá fora, um vulto naquele pôr-do-sol maravilhoso. Caminhei até ele.
- Ahá! Está bem melhor agora, ahm? - perguntou-me, caminhando para um pouco mais longe da casa.
- Nada como um bom banho.
- E então, vai me contar? - perguntou. Ao que parecia, corroía-se de curiosidade. Já havíamos descido uma pequena colina. A casa não mais estava à vista.
- Já é meia noite? Acho que não, hein. Mas você pode me contar alguns detalhes do que aconteceu. - ousei.
E ele contou, mesmo! Detalhes dos detalhes até, sem nenhuma censura. O Sol fora substituído pela Lua. As estrelas reinavam no céu. Ah, como era gostoso ficar ali, na companhia de um verdadeiro amigo, a ver a infinitude do universo. Deitamos na grama e apreciamos o momento. O silêncio era absurdo. Podíamos escutar a respiração do outro. Longe dali, animais soltavam seus ruídos, que se misturaram, após um tempo, com nossos suspiros ofegantes...
O ano novo chegara.